<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-7055677038051962606</id><updated>2012-01-15T20:21:13.183-02:00</updated><title type='text'>Entrelinhas e contrapontos</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://rancan.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7055677038051962606/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rancan.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Ubirajara Rancan de Azevedo Marques</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-kkAmDH6mRSE/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/-w6K46OktcQ/s512-c/photo.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>2</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7055677038051962606.post-8602939741766100640</id><published>2008-06-13T07:26:00.021-03:00</published><updated>2009-08-12T14:30:17.279-03:00</updated><title type='text'>Ensaiozinhos</title><content type='html'>&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Real e virtual&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;“Virtual”: “existente apenas em potência ou como faculdade, não como realidade ou com efeito real”. Essa definição, que ali aparece como o primeiro sentido do vocábulo, encontra-se no “Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa”, na edição publicada em 2001. Registrada em quinto lugar como acepção pertinente à palavra, tem-se ainda que “virtual” é o “que constitui uma simulação de algo criada por meios eletrônicos”. Como exemplo: “imagens da arqueologia v.”  Da mesma forma, se formos ao verbete “objeto” (sempre no &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Houaiss&lt;/span&gt;), encontraremos que “objeto real” é “aquele que se forma quando os raios luminosos que formam a imagem provêm do objeto”; em contrapartida, “objeto virtual” é “aquele cuja imagem é formada por raios luminosos que apenas parecem se originar no objeto”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em ambos os casos, as definições arroladas exibem registros fidedignos de significados assumidos pelos vocábulos, sendo contudo insuficientes – quando não involuntariamente nocivas – à compreensão de “virtual” no âmbito da informática, por referência à &lt;span style="font-style:italic;"&gt;internet &lt;/span&gt;(mais precisamente: a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;internetwork &lt;/span&gt;– “entre redes”, ligação entre redes) ou à &lt;span style="font-style:italic;"&gt;web &lt;/span&gt;[mais precisamente: &lt;span style="font-style:italic;"&gt;world wide web&lt;/span&gt; (“www”) – “rede de âmbito mundial”, rede mundial). &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A relação entre “virtual” e “real” pode cá e lá prestar-se a equívocos. Em razão do apelo espontâneo que exercem o vocábulo “real” e os seus cognatos, corre-se o risco de uma oposição indevida, fincada em terreno impróprio. É assim que, às vezes, a contraposição entre ambos é assinalada como se fora da ordem do objeto, e não, como deveria ser, por referência ao sujeito apreensor. Pois não se tratará de dois objetos, o “virtual” e o “real”, como se se tratasse de um, que, não-“real”, equivaleria a não-existente, e de outro, que, real, seria então o único a existir. Haverá um só e mesmo objeto diferentemente apreendido.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;As relações de toda a espécie que têm lugar via &lt;span style="font-style:italic;"&gt;internet &lt;/span&gt;ou tudo a que se tem acesso via &lt;span style="font-style:italic;"&gt;web &lt;/span&gt;está também à disposição na realidade, por assim dizer, “maciça”. Pessoas, livros e bibliotecas, informações de toda a ordem, produtos, lojas, instituições. O que distingue o virtual do real não é, portanto, a alteridade daquilo a que se tem acesso, mas a qualidade da abordagem que se pode fazer do mesmo objeto nas duas instâncias. Conseqüentemente, a alteridade no processo de abordagem não comprometerá a identidade principal do objeto, podendo, não obstante, interferir na qualidade da relação do sujeito para com ele, para com o objeto, em ambos os casos o mesmo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por identidade principal do objeto compreendo a que é conhecida a partir de algo ou de um conjunto sem o qual o objeto não seria o que é. Pense-se no caso de “livro”. Se o considerarmos uma “coleção de folhas de papel, impressas ou não, cortadas, dobradas e reunidas em cadernos cujos dorsos são unidos por meio de cola, costura &lt;span style="font-style:italic;"&gt;etc.&lt;/span&gt;, formando um volume que se recobre com capa resistente” (definição que se encontra à testa do verbete “livro”, no &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Houaiss&lt;/span&gt;), a Bíblia em sua versão &lt;span style="font-style:italic;"&gt;on-line&lt;/span&gt; não poderá ser chamada de “livro” (ou de "bíblia", pura e simplesmente). Já se o considerarmos “do ponto de vista do seu conteúdo”, como “obra de cunho literário, artístico, científico, técnico, documentativo &lt;span style="font-style:italic;"&gt;etc.&lt;/span&gt; que constitui um volume” (definição novamente presente no Houaiss), então a Bíblia em sua versão &lt;span style="font-style:italic;"&gt;on-line&lt;/span&gt; poderá, sim, ser chamada de “livro”. No primeiro caso, uma definição pelo aspecto formal; no segundo, pelo conteudístico. Com o advento da “realidade virtual”, claro está que, para ela, seria demasiado limitativa a definição que considerasse principal o aspecto formal, “maciço” da coisa a ser avaliada. Numa palavra: se assim se procedesse, excluir-se-ia de saída a alteridade representada pelo virtual, definindo-o por aquilo que ele justamente não é nem pode ser. Trata-se então de conceber a alteridade representada por ambas as modalidades de realidade do objeto – a “realidade real” e a “realidade virtual” –, salvaguardando-lhe a identidade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Será essa permanência de identidade uma razão "teórica" que explique a familiaridade sentida perante o mundo virtual? Tudo o que fazíamos (além de outras tantas coisas já antes mais ou menos desejadas, e, portanto, de algum modo “familiares”) continuamos ainda a fazer ou passamos agora a executar, em ambos os casos com uma facilidade de acesso cada vez maior. Dessa proximidade resulta o fato de a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;internet&lt;/span&gt;, considerada em função da sua eficácia, ser avaliada pelo que já é conhecido.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A sua identidade resulta à primeira vista de uma simples comparação, pois o real que ela de certo modo supera mantém-se ainda presente, seja como padrão de referência, seja como “substância” do que, afinal, é apreendido. É assim que dizemos da maior rapidez, maior eficácia, confiabilidade ou resguardo, tendo sempre memória do que, de menor rapidez, menor eficácia, confiabilidade ou resguardo é ainda, contudo, o critério da simpatia que nos une à rede.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Continuamos então a corresponder-nos uns com os outros, a comprar e a vender, consultar, visitar &lt;span style="font-style:italic;"&gt;etc.&lt;/span&gt; Acesso real e acesso virtual resumem-se a modalidades diferentes pelas quais permanecemos em contato com o mundo de sempre.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Se compro uma bicicleta através da rede ou se a escolho na loja, num caso como noutro terei sempre, afinal, o mesmo produto. Se vou a uma agência de turismo ou se compro o bilhete aéreo conectando-me ao portal da empresa, o resultado é idêntico, por mais que, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;in loco&lt;/span&gt;, eu multiplique as formas de acesso ao objeto do meu interesse, a ele, especificamente, ou ao que lhe esteja adstrito. Já não se pode, contudo, equiparar uma visita virtual ao museu do &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Louvre &lt;/span&gt;com aquela pela qual de fato eu estaria lá. Nesse caso, ela só pode ser comparada ao contato que eu faria com ele por fotografias ou por &lt;span style="font-style:italic;"&gt;slides &lt;/span&gt;avulsos ou então através de catálogos. E por quê? Pura e simplesmente pelo fato que a fruição estética de pinturas, esculturas e demais objetos de arte não é igualável com a apreensão de um utensílio. Decerto que não se quer negar a utilidade do acesso virtual a obras de arte, como a utilidade de fotografias, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;slides&lt;/span&gt;, catálogos. Quer-se, sim, justamente caracterizá-las, tais formas de acesso, como utensílios, cuja máxima qualidade não os livraria da condição de eternos quebra-galhos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Da mesma forma, namoro ou sexo via rede (refiro-me a ocasiões nas quais há efetivo diálogo ou troca de imagens e sons entre os envolvidos) não são igualáveis aos seus correspondentes reais. No caso do sexo, pode-se (excluindo-se os diálogos em tempo real) equiparar a fonte do desfrute virtual àquela obtida por meio de imagens publicadas em jornais ou revistas, projetadas em filmes ou &lt;span style="font-style:italic;"&gt;slides&lt;/span&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nos casos da bicicleta e do bilhete aéreo, exemplos de “utensílios”, a efetivação do seu usufruto só ocorre se e somente se o sujeito os possuir no modo real. Já no caso das obras de arte de um museu virtual, não há nem o usufruto da própria coisa, parcial ou total (pois não se trata de usu-fruto), nem a consumação de uma fruição parcialmente iniciada via rede (pois que sempre se tratará de uma reprodução do em princípio irreproduzível). Já no caso do namoro ou do sexo, em contrapartida, o sujeito ou os sujeitos da relação podem dar-se por momentaneamente saciados, sem o apelo à realidade “maciça” – ou, em casos eventualmente patológicos, justo pelo fato de ela não se fazer presente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas o que será então o virtual? Somente uma espécie de duplo fraco do real ou terá ele uma modulação objetual própria a ser distinguida? Ao que parece, ele pode apresentar-se de três diferentes maneiras: produtos ou serviços que são iniciados via rede, necessitando da modalidade real para serem completamente usufruídos; produtos ou serviços meramente indicados (numa espécie de anúncio eletrônico), cujo usufruto permanece circunscrito à forma tradicional; produtos ou serviços inteiramente acabados e à disposição no formato eletrônico. No último caso – justo aquele que constituiria o &lt;span style="font-style:italic;"&gt;non plus ultra &lt;/span&gt;da realidade virtual –, nele encontra-se, por exemplo, uma das verdadeiras maravilhas proporcionadas pela &lt;span style="font-style:italic;"&gt;web&lt;/span&gt;, que tanto permite elevar-se ao nível da fruição artística como possibilita restringir-se ao da mera utilidade. Pense-se então nas incontáveis obras de arte literárias, reproduzidas no original e num sem-número de traduções, à disposição de quem por elas interesse-se e tenha-lhes facultado o acesso. Diferentemente do que foi dito a respeito das artes plásticas, a modalidade de acesso virtual às obras literárias não resulta numa sorte de escamoteação do seu autêntico conteúdo, não porque a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;internet &lt;/span&gt;permita fruí-lo adequadamente (pois ela por si própria não leva a fruição nenhuma), mas porque ela dá-nos ao menos um acesso extraordinariamente amplo à matéria ordenada da sua feição imediata. Já não será exatamente assim no caso da música ou no da sétima arte, pois a qualidade do conteúdo exteriorizado (as interpretações que o apresentem) pode encontrar-se seriamente comprometida, comprometendo a própria obra em questão.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Voltemos. Nos dois primeiros casos – produtos ou serviços que são iniciados via rede e produtos ou serviços meramente indicados –, a expressão “realidade virtual” designará não propriamente o modo de ser real da virtualidade, mas o modo de ser virtual da realidade concreta. Já quando se tratar de produtos ou serviços inteiramente acabados e à disposição no formato eletrônico, a mesma expressão se referirá agora a uma modulação do “real”, cuja identidade, não se restringindo inteira à do propriamente real, será o modo de ser real da realidade virtual.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Conseqüentemente, assim como a realidade do real não se esgota na sua simples concretude ou materialidade (pois ela desdobra-se num feixe de significações e sentidos), a realidade do virtual não se limitará à posse de uma materialidade alusiva (pois, prescindindo-se dessa matéria derradeira, a sua objetualidade será por si mesma apreendida).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas o mundo da virtualidade, virtual em si, é sempre realizado pela ação do homem. Toda a vez na qual alguém o acessa, ele torna-se como que instantaneamente real, permanecendo virtual. Se aludo ao portal &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Gallica&lt;/span&gt;, por exemplo, e assim ao projeto de digitalização de enorme parte do acervo da Biblioteca Nacional da França, se o faço simplesmente assim, mencionando-o a alguém, a sua realidade é uma realidade-virtual. Mas se agora o acesso, explico o seu funcionamento a alguém, consulto uma obra ou a copio integralmente, então ele é uma virtualidade-real.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Essa realidade em princípio “fraca”, limitada por ação externa que a realiza e dependente de uma materialidade anterior, externa e derradeira, obriga o homem, em contrapartida, a uma dependência que lhe ilude e lhe dá um falso poder: o poder de tornar real o virtual.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sempre que se acionar um computador e por ele acessar-se o mundo virtual, o operador desse &lt;span style="font-style:italic;"&gt;cosmos &lt;/span&gt;de artifício será então especialmente poderoso, pois é autônomo para fazer com que o universo à sua frente seja ou deixe de ser. Mas, para novamente suspendê-lo (pois nunca é aniquilado), precisará de antes fazê-lo outra vez existir. Menos do que interferir no virtual, portanto, o homem simplesmente modulará o seu próprio estado, alternando-se em ora mais ora menos próximo de cada uma daquelas instâncias de realidade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A identidade do virtual, conceitualmente insuficiente na sua materialidade secundária, resulta real, influente, determinante nos efeitos – reais – que acarreta. Tomando de empréstimo (ou de assalto) a realidade real e forte, o virtual em pouco tempo a ultrapassa, mantendo-a, contudo, atrelada a si. Levado inteiro e simultaneamente aos quatro cantos (ou movimentando-se e permanecendo imóvel), o mundo real enfim se consuma como o que é sempre inteiro em toda a parte.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A onipresença da mais simplória &lt;span style="font-style:italic;"&gt;home page&lt;/span&gt; é razão suficiente do poder do virtual. E o homem, que levando é levado junto, se enclausura num “claustro” fascinante e arredio, espetacular e provisório, sem que dele resulte necessariamente crítica ou reflexão.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Na verdade, sem responder por si (pois não é responsável por coisa nenhuma, virtual que permanece), a rede permite verificar (e também desenvolver) a ultramercantilização generalizada existente – e, em primeiro lugar, a do próprio homem, tanto maior em razão do aparente domínio que ele exerce sobre um mundo reduzido a imagens.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Se tudo o que é visto pode em geral ser também apreendido por ao menos um dos demais sentidos, com o advento da rede, menos do que anulados pela pretensa superioridade funcional da visão, os demais quatro sentidos são preteridos pela “objetualidade” do virtual. Em verdade, só momentaneamente preteridos, mas nunca excluídos, pois que os quatro outros sentidos vão aos poucos sendo incorporados a essa sorte de “sensibilidade virtual”, como se à “nova economia” devesse corresponder uma “nova sensibilidade”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A instantaneização, a automatização das relações leva sem dúvida à irreflexão. E a reflexão – a dita “concentração do espírito sobre si mesmo” – requer um movimento que não pode ser idêntico para cada um. A reflexão desconhece a fronteira “real” / “virtual”, muito embora o seu movimento, fundamentalmente abstrato, possa ser tido pelo vulgo como pertencente à “realidade virtual”, impalpável que é. Impalpável, abstrata, eventualmente “virtual”, a reflexão trafega na contracorrente da instantaneidade, embora de forma nenhuma a rejeite ou possa sem ônus fazê-lo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A instantaneização homogeneiza as diferenças, conciliando-as em função de uma uniformização forçada, na qual impera a ausência dos meios-tons. E a realidade, quer me parecer ela seja essencialmente furta-cor, sua tonalidade se alterando conforme a luz que incide sobre ela.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A propalada democratização representada pela &lt;span style="font-style:italic;"&gt;internet&lt;/span&gt;, a cada dia mais próxima, mesmo nos países emergentes, com as chamadas políticas de “inclusão digital”, iniciativas obviamente meritórias, verdadeiramente impositivas, tal democratização nem por isso significará o asseguramento de qualquer avanço no grau de educação, no nível de conscientização ou no padrão de civilidade do comum das pessoas. Muito ao contrário, banalizam-se, por exemplo, desonestidades de caráter formativo (com a utilização de textos prontos ou semi-prontos à disposição na rede, em versão gratuita ou mediante pagamento, para a confecção de dissertações, monografias e demais obrigações acadêmicas), falseamentos autorais (com a atribuição de versos, poemas e textos de malíssima cepa e indubitável mau gosto a autores como Shakespeare, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade), difamações de toda a ordem, com dano às vezes irrecuperável à pessoa do caluniado – além, é claro, de crimes sobejamente conhecidos e relacionados à usurpação de dados e informações confidenciais, de natureza pessoal ou vinculados a órgãos públicos ou privados. Incluam-se ainda instruções concernentes ao fabrico de explosivos de variada potência, incitamentos ao preconceito e à violência de fundo étnico, apelos de natureza sexual, mormente os de máxima imoralidade, contendo a exibição explicitamente sexualizada de crianças e adolescentes. Dir-se-á que tudo já era assim, não tendo sido perpetrado pela rede, nem sequer por ela insuflado – senão que pela originária decaída do homem... Como quer que seja, o pandemocratismo irrefletido que tão bem denota a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;web&lt;/span&gt;, ele a um só tempo responde à já há muito em curso automatização das relações humanas como dá-lhes um inesperado novo combustível com o qual prosperar mais e mais. A única saída, aqui, será refletir, ainda e sempre, nadando reflexivamente contra a corrente...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Decerto que não se está a propor – pois inócua e ridícula seria a bravata – um retorno aos sinais de fumaça, como ao tílburi ou ao estado de natureza descrito por Rousseau. Mas, assim como é sadio e prazeroso caminhar, deleitando-se às vezes com o “flanar” das próprias idéias – suposto que se as tenha –, será preciso ir em frente sem esquecer da reflexão, a espiadinha decisiva que amortece a ilusão do impacto – afinal, qual o valor dos &lt;span style="font-style:italic;"&gt;nanobytes &lt;/span&gt;diante dos múltiplos sentidos do ser?...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O sedutor e a sedução&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;“(...) é que eu gosto tanto dela, que é capaz dela gostar de mim (...)”. O verso de Vinicius, da canção composta com Carlos Lyra, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Primavera&lt;/span&gt;, no embalo ingênuo da bossa-nova pré-68, permite uma leitura do quadro típico da sedução de qualquer tempo. Não é preciso que ela goste, nem mesmo eu, pouco ou muito; mas é preciso que eu pareça gostar, e tanto, que ela venha a gostar de mim...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O jogo da sedução não se dá exatamente no campo da sinceridade, mas no do convencimento. Mais vale o impacto do verossímil do que a sensaboria do verdadeiro. Não valendo pela intenção, mas pelo empenho, seria impróprio reduzir o sedutor a quem buscasse mera satisfação sensual. Prazer há mais no percurso do que na chegada. Longe de ser o tipo que “vence pelo cansaço”, é premiado pela crença que desperta. Dá o que parece em troca do que aos poucos devém. Não exatamente à base do gato-por-lebre, mas despertando no outro o sentimento autêntico que ele próprio não tem. Não sendo necessariamente um bardo, o sedutor (parodiando o poeta) chega a fingir que é amor o amor que deveras sente...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nem por isso, contudo, a sedução é um jogo de cartas marcadas. Por mais ou por menos que se adiante o seu propósito e que se mostre o seu desfecho, ela pertence ao imponderável. A confiança que o sedutor desperta, pano de fundo da trama, jamais é inteira, pela boa razão - válida para sedutor e seduzido - de nunca haver entrega plena. Na melhor das possibilidades, a gente se quer dar incondicionalmente. O ambiente furta-cor no qual atua, favorável a um misto calculado de fascínio e temor, torna-o de antemão um &lt;span style="font-style:italic;"&gt;bom bandido&lt;/span&gt;, fazendo da sedução um pecado venial. O sedutor não obtém prazer no acúmulo (não seduz em favor do próprio harém), mas sempre só em conquistar, tornando-se não propriamente o solitário, mas um perfeito egoísta. Dá muito, dando-se pouco. Tem o outro, mas se atém a si. O empenho que o distingue não lhe favorece o repouso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nesse jogo, a cumplicidade tácita, por aparente que seja, é a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;conditio sine qua non &lt;/span&gt;de toda a partida. Cúmplices, sedutor e seduzido executam em dueto. Quando um deles se compraz em excesso com o próprio desempenho (que o sedutor é narcisista contumaz), o diálogo torna-se funcional e o dueto transforma-se em solo acompanhado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Transitória, vale dizer, interessada, a sedução não possui um tempo rigoroso de duração, embora tenha um &lt;span style="font-style:italic;"&gt;timing &lt;/span&gt;extremamente preciso. Se o sedutor é um tipo empenhado, o seu empenho vale pela eficácia. Assim, é mais “eficaz” no jogo quem participa sem se prender, seduzindo sem perder as rédeas, deixando-se levar; ou, numa palavra, quem já conhece o caminho, a ponto de desviar o outro (&lt;span style="font-style:italic;"&gt;seductio&lt;/span&gt;, com efeito, significa ação de conduzir para si, atrair, desviar). O enredar-se, porém, não é necessariamente o sucumbir à vontade, ao projeto, ao interesse alheio, seja oculto ou declarado. É também, não raro, render-se ao próprio desejo, quando não ao auto-engano.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em geral, ao homem compete (melhor dizer: competia?) “fazer a corte”; à mulher, fatal ou não, resistir insinuando-se. Longe de ser passiva, essa resistência, espécie de espera cautelosa, é plena de avaliação, representando um dos modos de ser sedutores da mulher. Estratégia aparentemente conformista, usufrui do beneficio da reação, da resposta ao “primeiro tiro”. Propondo-lhe o jogo, o homem destaca-se pelo avanço que consegue. A partida, antes inesperada, agora espera pelo lance que ela der. Como no xadrez, a vantagem inicial da abertura precisa confirmar-se a cada instante, impondo uma dose a mais de responsabilidade e concentração. Nesse caso, a mulher, provocada a jogar, não tem sobre si o mesmo grau de expectativa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;De modo geral, porém, ainda que homem e mulher seduzam cada qual por motivos diversos, nem sempre coerentes entre si (o que significa dizer que ambos eventualmente coincidem nas suas motivações), a impressão de que, como por natureza, um deles é sedutor mais competente, melhor armado ou talhado para o &lt;span style="font-style:italic;"&gt;métier &lt;/span&gt;escapa a qualquer objetividade. Esse repetido bordão é uma espécie de subestratégia diversionista, mantida pelo rico folclore da relação entre os sexos, embora, no mais das vezes, seja marca de preconceito e ressentimento sexista. Da mesma forma, o poder de sedução, que não se deixa restringir a um território preciso, assim como não se encontra em um sexo mais do que em outro, jamais se limita a uma faixa etária, a um biotipo ou a qualquer parâmetro fisico ou emocional, como, de resto, não conjuga esses e outros elementos de maneira exclusivamente homogênea.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por outro lado, fala-se do sedutor não sempre como de um tipo que age assim (o sedutor em ato), mas, às vezes, de alguém que apresenta características e atitudes passíveis de tornarem-se instrumento de sedução (um sedutor em potência). Conhecido e repisado &lt;span style="font-style:italic;"&gt;ad nauseam&lt;/span&gt;, o fenômeno do “lolitismo”, por exemplo, será somente um caso a mais do poder de sedução em desenvolvimento, o qual, por mais que se pretenda restringi-lo à garota fascinante e ardilosa (vão esforço para comprovar o originário fatalismo da mulher), é comum a moças e rapazes. Talvez as formas mais características e também as mais extremadas de cumplicidade no jogo de sedução heterossexual, o “lolitismo” e o seu correspondente às avessas, o “lobismo” (imputado ao homem e igualmente compartilhado pela mulher), ambos são as duas pontas de uma mesma corda nos seus inúmeros laços. Mais do que se distinguirem como candura e vileza, primeiros passos e últimos tropeços, respondem por boa parte do quadro referencial da sedução. “Chapeuzinho” e “lobo mau” (como seus congêneres &lt;span style="font-style:italic;"&gt;femme fatale&lt;/span&gt; e &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Don Juan&lt;/span&gt;), incapazes de representar os tipos e variáveis existentes, contêm em germe, todavia, roteiro e cenário de muita história na qual, de bom ou mau grado, depois seremos atores.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Jogo no qual não se tem um campo definido ou duração estabelecida, e cujas regras não se fazem declarar, a sedução pode estar em toda e em nenhuma parte e pelo tempo que for. Interessada, ela não pode ser às claras. Mas num jogo assim, o princípio da clareza e distinção é contornado pela interferência de um simples pretexto, sorte de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;chiaroscuro &lt;/span&gt;que é a pedra de toque da seducão – e, por sinal, do próprio comportamento humano.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Neonacionalismo e “corporalização” no canto coral brasileiro&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Manifestação tão antiga quanto contínua, presente na arte ocidental há aproximadamente três mil anos (ou há quase seis séculos, se considerarmos o seu feitio especificamente musical e desde então gradativamente autônomo), o canto coral é prática facilmente organizável, de custo baixo, que apresenta resultado satisfatório em pouco tempo. Valendo por si mesmo, serve ainda às cerimônias mais tradicionais (posse de autoridades, casamentos, atos políticos, homenagens de toda a ordem &lt;span style="font-style:italic;"&gt;etc.&lt;/span&gt;), emprestando-lhes brilho e suavidade, energia e beleza. O fato de essa atividade estar em si mesma ligada ao prazer, ao deleite, à fruição, não só não a isenta de ser disciplinadamente executada, como até mesmo lhe impõe responsabilidade suplementar. Não sendo a necessidade o que nos conduz ao canto, ele é que nos deve conquistar, oferecendo-nos, em lugar da carência suprida, o desfrute da emoção.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas, raramente conscientes da sua importância na cena artístico-musical – intérpretes que são, medeiam entre autor e público –, os corais tendem a compreender prazer, deleite, fruição, ou de modo particularmente egoísta (como elementos da inserção e da permanência de integrantes no grupo, não como vetores de uma relação primordial com o ouvinte), ou de maneira reprodutora, negando ao público formas musicais de elevado requinte estético, dando-lhe em troca o que de antemão agrade, reforçando o padrão de gosto, em geral barato.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não por acaso, a música coral, já há quase três décadas, tem se dirigido em particular aos olhos, mais do que à escuta. Em apresentações ao vivo, evidentemente, tanto se ouve, tanto se vê. Mas o que, nesse caso, se poderia chamar de sentido secundário – a visão –, prevalece com freqüência sobre o que se deveria, inversamente, considerar como senso primário: a audição.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em que pese tal fato, parece-me que o principal elemento a ser posto em atividade no âmbito do canto coral (e da própria Música) é o da audição. Para regente e coralista, como para o público, deve ser através do resultado apreendido por ela que uma determinada obra venha a ser considerada bem ou mal executada, levando o ouvinte à maior ou menor emoção. Obviamente, não é assim com outras formas artísticas, como as artes plásticas e o Teatro, por exemplo, as quais não poderiam deixar de privilegiar outros elementos da sensitividade. No próprio caso da Música, a ópera exige a interferência do sentido da visão. Mas mesmo aqui é perfeitamente possível apreciar longos e variados trechos com a única ou precípua intervenção da escuta. Do mesmo modo, obras-primas como &lt;span style="font-style:italic;"&gt;A sagração da primavera&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Petrouchka&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;O pássaro de fogo&lt;/span&gt; (para recordar somente Strawinsky), concebidas originariamente como bailados, são há muito executadas como peças do repertório sinfônico.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um coro é um coro, primeira e substantivamente. Há coros cênicos, porém, cuja singularidade exige um trabalho misto – "áudio-visual", dir-se-ia bem –, cuja realidade não raro mascara a insuficiência especificamente musical.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em prefácio a uma rica coleção de belos arranjos compostos por Marcos Leite, Roberto Gnatalli, que decerto ecoa a opinião de tantos outros profissionais da área entre nós, observa: “o Canto Coral Brasileiro, a partir de meados dos anos 70, sofreu transformações estéticas e posturais tão profundas que, em menos tempo do que se pudesse supor, livrou-se da crosta de conservadorismo que lhe tolhia os movimentos, reconquistando o seu papel social de aproximar pessoas e fazê-las musicar em comunidade, com prazer e simplicidade” (GNATTALI, R. “Prefácio”. In: &lt;span style="font-style:italic;"&gt;O melhor de Garganta Profunda&lt;/span&gt;. Arranjos para Canto Coral com cifras – Marcos Leite. Coordenação de Luciano Alves. São Paulo: Irmãos Vitale, 1997; p. 5). Ainda segundo ele, agora em referência ao Coral da Cultura Inglesa e ao Cobra Coral, ambos criados por Marcos Leite, “estes grupos foram muito importantes, à época, não só porque demoliam com uma concepção comportamental importada como detonavam, musicalmente, com a sonoridade vocal impostada, originárias da Europa.” (ibid.)&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Essa crítica, embora vazada em formulação ligeira, permite supor a defesa de uma sorte de nacionalização do canto coral, relembrando famosa polêmica doméstica dos anos 1950, especialmente protagonizada por Kœllreuter e Camargo Guarnieri, entre o criador do movimento Música Viva (defensor das linguagens musicais então contemporâneas, como o dodecafonismo e a música eletroacústica) e o autor da Carta Aberta aos Músicos e Críticos do Brasil (para quem, em contrapartida, “o dodecafonismo, em música, corresponde ao abstracionismo, em pintura; ao hermetismo, em literatura; ao existencialismo, em filosofia; ao charlatanismo, em ciência” (GUARNIERI, C. Carta aberta aos Músicos e Críticos do Brasil. In: http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia/musica/index.cfm?fuseaction=detalhe&amp;amp;cd_verbete=4628).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Polemizar contra o fato de uma dada “sonoridade” provir de cultura outra parece-me algo perigosamente obscurantista, em que tempo for. Não se dando as costas às manifestações brasileiras, cujo conhecimento e prática precisamos nós de em primeiro lugar estabelecer, a música não deve resguardar-se de ser um bem maior, extrafronteiriço por excelência. De resto, se é estranho cantar música popular com voz impostada, será proporcionalmente artificial interpretar a dita música culta (estrangeira ou nacional) sem colocar a voz. Tenho a impressão de que será o tempo de abandonar o dualismo reducionista, soluções perversas para pequenos falsos problemas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Talvez por conta de um sentimento inicial de incompetência e frustração na busca por fazer como faz o outro (esquecendo-nos, nesse caso, de que a sua arte, como obra feita, padrão de gosto e técnica interpretativa, tem longa e sedimentada história), tenhamo-nos aferrado ao que fosse próprio. Uma forma de ressentimento às avessas, como se, à rigidez togada (que, ridícula, sobrevive), melhor se reagisse se se lhe contrapusessem túnicas em algodãozinho!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Se é ocioso lembrar a existência de um grande número de exceções, várias delas digníssimas, o que em contrapartida será preciso notar é a disseminação de um certo estilo, precipitadamente elevado ao estatuto de modelo, cuja face ostenta uma postura corporal miticamente veiculada (proporcional à mera negação que a engendrou), a adoção sem critério de um repertório garantidamente simpático, e, por extensão, o repúdio imponderado do que lhe pareça estranho. Cante-se coisa nossa e com jeito próprio! – essa a divisa tacitamente assumida. Se tantos de nós, formados em outro tempo ou tendo sofrido diferente influência, sentimo-nos individualmente pouco incomodados, o fato é que há um patrimônio musical polifônico em vigor desde pelo menos o século XIII, herança em perene execução pelo mundo afora, constituído por obras que fazem soar boa parte da história da humanidade, cujo conhecimento e estudo não podem submeter-se a ditames vocálicos, programáticos e corporais de caráter neonacionalista.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A ênfase hoje predominante no trabalho com o corpo é muitas vezes desmesurada, como se ele – importante, mas no seu âmbito – pudesse rivalizar com a educação musical! Acaso já se terá pensado em orquestras sinfônicas auxiliadas pela “consciência corporal”? Por que não!? – dir-se-á. Invertamos, contudo. E por que sim com os corais? Essa peculiaridade contemporânea terá sido talvez facilitada pelo fato de o próprio canto não ter, à parte, um instrumento do qual provenha o som (como na orquestra e na banda, por exemplo), mas de estar literalmente incorporado, favorecendo a concepção do “cantar com o corpo todo”, ou seja, integralmente, sorte de máxima tautológica da qual então só importaria conscientizar-se.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um tal sofisma – que poderia ocasionalmente apresentar-se como: todo o corporal é movente; o cantar é corporal; logo, o cantar é movente – peca pela “corporalização” do termo menor do raciocínio (“cantar”). Todavia, para além do aspecto lógico, o que importa é a marca de naturalidade conferida pelo encadeamento à conclusão, pela qual, agora, o seu contrário pareceria aberrativo. Um cantar não-movente, tolhido de movimento, passaria por conservador. E ele certamente o é! – no espaço da música popular ou no da folclórica, por exemplo. Elevada, porém, a MPB à condição de referência privilegiada para o desempenho da música coral – como é o caso para muita gente talentosa e de boa-fé, mas com formação deficiente –, o canto polifônico clássico torna-se presa fácil do reducionismo corporalista e do neonacionalismo que o fundamenta.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Para bem realizar a obra que for, porém, é necessário não somente executar em conjunto as linhas melódicas de cada naipe, mas compreender a construção musical da partitura, o fraseado que a distingue, as suas partes constituintes, o diálogo entre as vozes, a relação entre sílabas e notas, a estética que a acompanha. Ao lado desse esforço literalmente reflexivo, é preciso o investimento de cada intérprete na descoberta e expansão da sua própria musicalidade, tarefa que pode levar uma vida inteira e não se completar, pois toca no mais fundo de cada um. A interpretação, em última instância, é produto da educação e da cultura e de um vasto esforço de compreensão e aprimoramento. Numa palavra, ela resulta da formação.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7055677038051962606-8602939741766100640?l=rancan.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rancan.blogspot.com/feeds/8602939741766100640/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7055677038051962606&amp;postID=8602939741766100640' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7055677038051962606/posts/default/8602939741766100640'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7055677038051962606/posts/default/8602939741766100640'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rancan.blogspot.com/2008/06/ensaiozinhos.html' title='Ensaiozinhos'/><author><name>Ubirajara Rancan de Azevedo Marques</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-kkAmDH6mRSE/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/-w6K46OktcQ/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7055677038051962606.post-3126097168649814045</id><published>2008-06-13T06:30:00.058-03:00</published><updated>2012-01-15T20:21:13.199-02:00</updated><title type='text'>Crônicas, continhos, poemetos</title><content type='html'>A vingança do sapato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha viagem ao Québec começara em Bauru. Não exatamente a "viagem" [essa contava pouco mais de uma hora, desde Marília], mas – a viagem. &lt;br /&gt;Um dia antes, entre as últimas providências, a escolha do calçado. Resolvera ir e ficar com um só. Às voltas com o temor do frio canadense, mesmo no início do outono, pensara num par de botas, apropriadas para a temperatura, também para a ocasião. Chiques e quentinhas. Ou então os sapatos pretos ainda pouco batidos, menos quentes mas igualmente adequados. Um ou outro, seria preciso engraxar o escolhido. Já meio tarde e com muito a fazer, optei pelo menor esforço. &lt;br /&gt;Na manhã seguinte, sapatos lustrados, volta e meia olhava e conferia o brilho – que devia durar sete dias [ao menos cinco]. Definitivamente, eu caprichara no lustro! &lt;br /&gt;Rumo à Capital, o ônibus seguia viagem. &lt;br /&gt;Lá pelas 10h50, entretido com a leitura do ótimo Eu, primata, percebo que entramos pelas instalações do "Sem limites", ponto de parada do Expresso de Prata para as viagens iniciadas na Alta Paulista [e era o caso, pois boa parte dos passageiros tinha embarcado em Tupi, de onde saíram pouco depois das 5h]. Pra não ficar com vontade na hora errada, fui eu também ao banheiro. Sempre inquieto com o brilho periférico e com não pisar no testemunho líquido de quem me precedera naquele recesso-de-privacidade-momentânea, tratei de afastar as pernas, mantendo-as no limite do compartimento em questão ou na área limítrofe dos cubículos adjacentes... Mal iniciada a função, dei pela entrada de alguém no da esquerda. Ao contrário de mim, porém, o confinante parecia ter muita precisão de lavar a égua, todo esbaforido. E não é que o "sujeito escatológico" ao lado, na ânsia de saciar-se, erra o alvo e acerta no lustro do meu sapato!? O prejuízo acabou compartilhado, pois, ouvindo meu palavrão, o fulano, que mal começara a desafogar-se, saiu correndo banheiro afora, decerto respingando-se. Que fazer? Voltei aos chimpanzés e bonobos do livro de Frans de Waal. &lt;br /&gt;Bem mais à frente, já por volta das 22h, na lotada, barulhenta, comprimida "econômica" do 767-300 da Air Canada que me levaria a Toronto, achava-me na poltrona "20 A", lado direito da aeronave, corredor, ninguém ao lado. Sem bagagem de mão, assistia ao frenesi dos patrícios [cariocas, quase sempre], disputando espaço no compartimento de bagagem acima dos assentos [imagine-se a viagem de volta...]. Essas divisões [ao menos no modelo em questão] acomodam 30 kg. Mas o esforço de boa parte dos viajantes ao levantar o peso da própria bagagem fazia supor ao menos uns 20 kg por passageiro... Nada disso me abalava, porém. Revistinha de bordo em mãos, imaginava se teria de arranhar o inglês ou desenferrujar o francês com quem estivesse à janelinha pelas quase dez horas de viagem previstas. &lt;br /&gt;Aproxima-se uma jovem. Olha pra mim, depois pro assento vago, tornando claro que a janela é sua. Branca como ela só, olheiras profundas e um olhar entre o triste e o muito-triste, quase um espectro. Em vez de aguardar que eu me levantasse, para então passar, ela meio que avança, desatinada, quando eu já me erguia pra lhe dar passagem. Pior do que nos trombarmos os dois foi eu ter depositado meus 85 kg sobre os pés da criatura! Muito pior ela estar com sandálias de dedo! Verdadeiramente catastrófico aquele fantasma ambulante ostentar os dois dedões inchados, enfaixados com gaze e – purgando!!! As poucas forças que lhe restavam permitiram-lhe, ainda assim – gritar! Já me vi expulso do avião por uma brigada carioca-canadense. Acorreram três comissárias, amparando imediatamente a vítima, olhando pra mim por sobre ela, pois eu já estava novamente sentado [na verdade, procurava o colete salva-vidas, desejoso de estar sobre o "triângulo das Bermudas"...]. &lt;br /&gt;Uma das comissárias, fitando os pés da moça, pareceu dar-se conta do ocorrido, dizendo-lhe:  &lt;br /&gt;"– Oh my God! Are you OK? Really?"...&lt;br /&gt;Eu, levantando-me, só tive tempo de balbuciar um embaraçadíssimo: "– I really sorry!... " Ao que a moça, percebendo meu sotaque [e o português da capa do livro], retrucou: "– Tudo bem... Pode deixar..." &lt;br /&gt;No dia anterior, com as unhas encravadas, ela fora a uma pedicure [queria viajar sem dor...]. Mas a profissional piorara a situação, o que a levara, horas antes, ao pronto-socorro do Aeroporto de Cumbica! &lt;br /&gt;Por via das dúvidas, a mineira Natália não se levantou até Toronto, tendo ficado o tempo todo [dez horas e dez minutos] com os dois pés sobre o assento de sua poltrona. Completamente sem-jeito, senti-me o próprio – primata. &lt;br /&gt;Ainda bem que não optei pelas botas.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Intimidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era só encontrar alguém e ele enfiava a mão no bolso. Procurando, achava e –coçava. Às vezes, apressado ou porque a coisa requeria urgência, ia logo coçando, diretamente por sobre a calça, à vista de quem com ele estivesse ou por ali passasse. &lt;br /&gt;Quem já não topou alguém assim [ou teve de aliviar a própria comichão]? Jovens, porém, recém-chegados à Universidade, o cacoete – ao menos na pele [sem trocadilho] daquele acadêmico respeitado – incomodava todos nós. Pior ainda é que o sujeito não se furtava a estender a mão a quem quer que fosse, homem ou mulher. E quem, na tentativa de driblar cumprimento ou contágio, metia as próprias mãos nos bolsos, passava por imitador! &lt;br /&gt;Alguns colegas atribuíam o gesto a uma suposta sem-cerimônia provincial: "Você já viu um professor da USP coçando o saco em público?" De fato. Mas ninguém mais o fazia. Ao menos não tão vorazmente. Porque o tique do "companheiro" não se limitava ao gesto de volta e meia sentir as partes e ter o "poder" nas mãos. Aquele prurido era um autêntico levante contrarrevolucionário que o velho comunista tentava em vão debelar.&lt;br /&gt;Havia outro. "Limpava o salão". E à medida que se exaltava – o que nesse caso era norma, principalmente em reuniões –, mais e mais o fura-bolo ascendia. Pôr e mexer, tirar e repor. No cume da excitação, o colega erguia-se do assento. Mas se aquele dedo não estivesse lá, estaria provavelmente em riste...&lt;br /&gt;O verdadeiro carma, contudo, era outro. Coçação e limpação, vá lá. Afinal, o trejeito é compulsivo. Já usar o cortador de unha a céu aberto... Porque aí você faz a coisa de caso pensado. Compra o instrumento, leva-o consigo, se o esquece, amofina-se... Só castigando. &lt;br /&gt;E não é que havia uma "educadora" a passar o tempo assim? &lt;br /&gt;De modo a não causar melindres, porém, fazia-o nas próprias aulas.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Remémorations.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Você vem à Europa. Junto, fantasias que o cinema criou. Não tanto pelos filmes europeus, que a maioria dos exibidos no início dos anos 70, fazia tempo, já era made in Hollywood. Como o glicêmico "Candelabro ["Al di là..."] italiano" [Rome Adventure]. Havia também "Golpe à Italiana" [The Italian Job], protagonizado pelo britânico Michel Caine, cujo astro, porém, era o sempre charmoso Mini Rover, que a BMW, depois, redesenharia e lançaria como Rover. &lt;br /&gt;O hábito de quedar-se em leitura e pensamento, na companhia de café, livro, cahier, é tão real a vinte e quatro quadros quanto entre uma baforada e outra. Pois como imaginar um Sartre e uma Simone de Beauvoir no Café de Flore, não exatamente sem o cigarro, mas sem – ela? Malgrado tosse, pigarro, as coisas todas, a fumaça compõe a cena, abruma o pensamento. Ligando o céu à terra, lembra ao pensador em transe que ele também é transeunte. Com a exceção dos desenhos animados, o século do cinema seria outro sem ela. &lt;br /&gt;Mas Paris, em primeiro lugar, era a Biblioteca Nacional da rue Richelieu. "BN", para os íntimos. O pé-direito da Salle des Imprimés, a Salle des Catalogues, e tudo o mais que eu só conhecera pelo filme-documentário de Alain Resnais, Toute la mémoire du monde. Dele, eu guardara a estranha imagem dos abajures nas mesas, sem jamais pensar que fosse algum dia usá-los... A sensação de estar ali era por si só um exagero. Como os tipos verdadeiramente bizarros ao redor.&lt;br /&gt;Havia um senhor, circunspecto, pontual [era sempre um dos primeiros a entrar na sala de leitura], e, acima de tudo, o próprio asseio em figura de gente. Não bastasse lavar mãos e rosto, lavava a pia e o entorno com dedicação exemplar! Outro, matemático inglês, encoberto pela coluna de livros à mesa, volta e meia lançava um urro já conhecido dos funcionários e habitués da casa. Quando me assustei pela primeira vez, comentei com um amigo, em tom de galhofa, que o grito indicaria a resolução de algum grande dilema matemático! Ao que ele retrucou: "Que nada! O cara tem é hemorróida..."&lt;br /&gt;Todos nós, porém, até então protegidos do mundo exterior, formando estranha e provisória confederação de nacionalidades, objetos de pesquisa, línguas e costumes, todos nos precipitamos para o saguão do prédio, quando, certa vez – qual obra generosa da fantasia –, Catherine Deneuve, la belle de jour em pessoa, deu-nos o ar da graça! Sua aparição – meteórica, fulminante, inexplicada – devolvia-nos por instantes a humanidade cuidadosamente refreada.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Vanessa e o cão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O interfone soara. Normalmente, passaria adiante a tarefa de dispensar o estorvo. Naquela manhã, porém, a coisa não andava. Dormira mal, esquecera de comprar leite e o alemão do texto em gótico não me era nem um pouco familiar. Nikolaus Tetens que esperasse. Voz feminina. Delicada, gentil, mesmo que ensaiadamente delicada-e-gentil. "Bom dia! Chamo-me Maria Luísa." E já me chamou a atenção a ênclise. Bem melhor do que a sem-cerimônia do: "Tudo bem!? Aqui é a fulana de tal." Não gosto. &lt;br /&gt;Como a coisa não andava, andei. Acedi à solicitação ["Posso lhe falar um instante?"]. Ao descer a escada "pé-sim, pé-não", pensava em por que o Bóris não latira. Precavido, olhei pelo olho mágico. É claro que algumas opções tinham-se descartado. Não esperava uma candidata a empregada doméstica nem uma pré-adolescente de escola pública com rifa para o "Dia das Bruxas". &lt;br /&gt;Não sabia se enxergava bem, pois via um perfil conspicuamente british, very british à minha porta – talvez too much british para aquele confim entre rural e urbano marilienses, às dez-e-alguma-coisa-de-uma-terça-qualquer-de-outubro. Mas a confirmação da perspectiva mágica apontou-me Vanessa Redgrave em Julia, no esplendor de seus quarenta anos [e em meus incipientes dezessete]. Já não me lembro se havia cena em que ela pedalasse a céu aberto entre flores e sorrisos. O fato é que, se "Vanessa Redgrave" batia à minha porta, eu tinha todo o direito de vê-la assim, pedalando-a-céu-aberto-entre-flores-e-sorrisos. &lt;br /&gt;Well, well, well... Sim: de fato, uma quarentona bem-apanhada. Sorria tanto quanto falava, falando bem. Alta e com chapéu, a saia à altura dos joelhos não lhe estava mal. Sem bicicleta à vista, tinha olhos azuis, rosto afilado, cabelos sem tintura aparente, castanhos e ondulados. Na blusa florida, mangas levemente bufantes. Sem pressa nem querendo entrar, Vanessa tupiniquim desempenhava seu papel. &lt;br /&gt;Enquanto se reapresentava e dizia a que vinha, lembrei-me de quando havia placas ao lado das portas das casas, que identificavam a profissão do morador-mor. Com fundo branco e inscrição em preto, azul ou verde, nelas se lia "Advogado" ou "Médico", sempre um "Doutor". Nunca vi plaquinha de outro profissional. É claro que eu jamais poria algo assim na fachada de casa: "Professor Doutor De Azevedo Marques. Filósofo." Se fosse o caso, melhor, então: "Oca consultiva do murumuxaua Ubyrajara".&lt;br /&gt;Vanessa de araque, contudo, deve ter pressentido a ocupação do habitante, pois, certeira, indagou: "Você quer conhecer a Verdade!?"... Escrúpulo presente, não pude negá-lo. Pruridos à parte, despachei-a. &lt;br /&gt;Já o cão, sempre quieto, é – desconfio – evangélico.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A volta da Ercília.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me agrada essa onda de revivals dos mais diferentes tipos, amparada no marketing e sem qualquer originalidade. Vem daí eu implicar com o nome daquele estabelecimento: "Empório Santa Ercília". Já de saída ficava em dúvida sobre "Ercília" ter ou não "h". Depois, se teria havido santa com tal nome. O que mais incomodava, porém, era a lojinha metida designar-se – "empório". Só o do seu Tricca, na Frei Gaspar da Madre de Deus da minha infância, com bolacha em lata e barris de azeitona preta, tinha direito a tanto. Definitivamente, eu nunca poria os pés ali. &lt;br /&gt;Ontem, fazendo [outra] coisa que jamais faria, ouvi numa rádio local que o Ercília começava, no mesmo dia, não uma liquidação, claro, mas uma "renovação de estoque". Em que pesasse o eufemismo barato, a coisa me atraiu. Gostava de uns móveis rústicos em exposição na parte externa do – empório. Por que não? &lt;br /&gt;Ao chegar no Santa, notei carros em fila dupla e um montaréu de gente que ou não fazia questã de manter o salto ou sequer o tinha. Se a cena permitia ao consumidor acanhado bater em retirada antes de começada a peleja, fornecia ao intelectual de gabinete um álibi de ocasião para permanecer em campo. Virando pelo avesso a estratégia do Ercília [o burburinho em volta até lembrava um verdadeiro empório], aquele inusitado sucesso era um prato cheio para o sarcasmo de prontidão. &lt;br /&gt;Querendo estar, nem tanto, agora sim, a distância, sentia-me protegido e regalado. Salvo pelo gongo, recuperara a atitude – ou, mais: a índole crítica.&lt;br /&gt;Aproximei-me de toda a gente, mais ao lado do que entre, pois não havia fila que aguentasse tanto empenho. Não se ia nem se vinha, porém se estava. &lt;br /&gt;Vejo uma senhora. Distinta e resistentemente cortês, dirige-se a vários, falando-lhes com educação, sorrindo-lhes amistosamente [Ercília?]. A mansidão de seu jeito distribuía um apaziguamento duradouro, aglutinando uns e outros em volta dela [Ercília!]. Aos que estávamos atrás, já então à sua espera, vê-la e a seus gestos tornava-os mais e mais eficazes, quase encantatórios. Como retribuir semelhante delicadeza? Comprando mais, pensei. E, então, Ercília pareceu-me vilã. Confirmando o juízo, percebi que alguns com quem falara foram depressa aos produtos na entrada da loja. &lt;br /&gt;Entre vê-la com outros olhos e partir irritado, Ercília já estava diante de mim. Não se apresentou – era preciso? –, mas pegou-me a mão. Segurando-a firme, olhando-me mais firmemente ainda, disse: "Vá à entrada, pegue o que lhe agrade, volte amanhã para pagar. Há muita gente e ninguém conseguirá dar conta." &lt;br /&gt;Tão inacreditavelmente simples quanto absolutamente inacreditável! Tamanha a convicção do gesto, a santa em pessoa a praticá-lo, não titubeei. Encontrando um abajur, sem nenhum constrangimento e feliz pelo experimento sem igual, fui-me embora com ele.&lt;br /&gt;Dia seguinte, 10h, voltei ao Empório. Lá chegando, algum movimento; nada comparado à agitação da véspera, porém. Sorrindo, não encontrei retribuição, antes pelo contrário. "O senhor também veio ver a – dona Ercília? Então já vou logo dizendo que ELA MORREU!" Chocado com a agressividade e sem-cerimônia da notícia, respondi que estava surpreso, sentia pelo falecimento da proprietária, desejando pagar o abajur levado. "O senhor trouxe a peça?" Não, embora pudesse descrevê-la. Ao tentar fazê-lo, fui logo interrompido por uma moça do lado de trás do balcão [seria a filha?], que disse ao rapaz: "Eu explico."&lt;br /&gt;Aquela senhora nunca fora "dona Ercília". Ercília é uma gata que se foi. Grande, gorda, amada e morta. A outra "Ercília" ninguém sabe de onde veio nem pra onde foi.&lt;br /&gt;O prejuízo era grande. Despreparadas pra tanta gente, as moças que atendiam, ontem, mal viam quem entrava na loja. Não viram dona Ercília nem a caridade praticada. &lt;br /&gt;Pra quem pensara jamais entrar naquele empório, eu voltava – com o abajur e sem nenhuma "índole crítica" – pela terceira vez em 24 horas! Não me sentindo à vontade pra devolver a peça – que não estava no rol de ofertas... –, paguei por ela uma indecente exorbitância. &lt;br /&gt;Uma das atendentes fantasiou: "Quem sabe não foi a Ercília que voltou como velhinha?" Nesse caso, um revival ao pé da letra. E, dessa vez, completamente original.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;"Silêncio da Vida". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Otacílio Augusto Ranzari. "Ôta", "Óta", acabou em "Gota". Maria Rupertina Tavares Miranda, "Ruti". Seu Gota e Dona Ruti. Nascidos, criados, perdidos em Milharal do Sul, coisica de nada no altiplano catarinense. Solteiro e viúva, um e outro à espera que uma pirueta do destino enfim lhes desatasse os nós – ou lhes amarrasse os trapos. &lt;br /&gt; O máximo de esforço reflexivo em Otacílio Augusto rendera-lhe uma autoimagem singularmente generosa. Tal como o bombardino lustroso com que subia aos domingos o coreto da praça Barão, seu Gota, ausente da melodia, sentia-se a base do edifício harmônico. Fossem quais fossem as peripécias de clarinetas, saxofones, trompetes, a banda inteira nada faria se ele não lhe desse apoio. Dono [e factotum por avareza] da única funerária local, concluía que a expectativa do bom caixão, base da derradeira morada, era a fonte do respeito que todos prestavam a quem lhes abotoava o paletó.   &lt;br /&gt; Maria Rupertina, por sua vez, eterna manicure-pedicure, já de quando praticava em seu priminho Adamastor [cujo nome não lhe diminuía o ar efeminado de quem crescera entre talcos e pompons]. Dona de um dos dois centros de estética de Milharal, Ruti atraíra a clientela recém-endinheirada do pedaço. Fascinada por cutucar os outros, não importando quem fosse ou como estivesse, a aproximação com Otacílio veio como oferta para ajudá-lo a lavar e a vestir a defuntaiada local [o que lhe garantiria mexer e remexer quanto pudesse em cada – cliente].&lt;br /&gt; Mas Ruti nunca fora necrófila, não acreditando sê-lo agora. Tanto é que jamais tencionou apelar para alguém de passagem, inda mais das vizinhanças. Como, porém, entre vivos, satisfazer a tara numa aldeiazinha daquelas? &lt;br /&gt; Envergonhado por já não falar direito a língua-mãe – perdido entre o "santa catarina-deutsch" e o dialeto vêneto dos oriundi –, Otacílio não conhecia uma só palavra de inglês. Ocorre que [não se sabe como] ele tinha um pequeno acervo de seriados e filmes "B" em 8 e em 16mm, protagonizados por Roy Rogers, Durango Kid, Zorro, Audie Murphy – mas em versão original. Como não ficava bem um empresário de sucesso e instrumentista de mão-cheia mostrar-se inculto, ninguém sabia daquela cinemateca privée. Guardados num belo caixão de mogno, juntamente com os projetores que lhes davam vida, filmes e seriados dos anos 40 e 50 faziam o deleite abscôndito de seu Gota. Isolado socialmente – certas profissões estão ligadas aos odores de sua prática e ao mau agouro que se lhes associa –, Otacílio, tirante o coreto dominical, tinha, quando tinha, somente a companhia dos mortos. E era com eles que dividia o prazer de suas – sessões [em geral matinées]. Nem pensar em fazê-lo com uma dona de salão, tipo mexeriqueiro que só! Assim, Gota retardava a entrega do falecido da vez, invocando a trabalheira de lavá-lo, vesti-lo etc., o que – compreende-se – teimava em fazer por conta própria. Com a vinda de Ruti, porém, a sorte de um quase trouxe infortúnio ao outro... &lt;br /&gt; Sem nunca terem falado a respeito, Otacílio e Rupertina mantiveram anos a fio a "sociedade empresarial". Alheios ao diz que diz que de quem os via como amantes, sem compreender a razão de não formalizarem a "sociedade conjugal", ambos conviveram [prazerosamente] com mortos entre vivos, sendo até mesmo dignificados por isso. Numa certa manhã de sábado, 14 de outubro de 67, lia-se, com efeito, na coluna "Milharal-manchete" do Diário Milharalense: "O consórcio entre Otacílio A. Ranzari e Maria Rupertina T. Miranda representou um benfazejo aprimoramento nos serviços da 'Casa Funerária Silêncio da Vida'. O gesto ademais singularmente humanitário desses beneméritos cidadão e cidadã milharalenses-do-sul rendeu-lhes justa homenagem do Lions Clube local, cujos Leões e Domadoras, em recente efeméride que congregou o high society de nossa cidade e região, destacaram a exemplaridade da iniciativa."&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Stormy Weather.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Este trabalho não está em condições de ser submetido a uma Banca Examinadora; quiçá, se tanto, a uma Junta Médica!" Com tamanha peremptoriedade, exemplar em mãos, ele dera início – e fim – à sua arguição. É claro que ainda insistiria um pouco, cavando a tumba do estudante perplexo. Não que seu intento fosse espezinhar autor ou orientador. Daquele nunca ouvira falar e deste fora sempre amigo sincero. Como quer que seja, numa leitura fatal do perde-se o amigo, não a piada, o mestre ainda seria repudiado por seus pares. Adalberto Osías Monteiro, quase eminência local, era o bem conhecido "Professor Quizás". Em 82, com efeito, numa assembleia na faculdade, lá pelas tantas, após intervenção de um colega, ele retrucou: "Quiçá! Repito: quiçá!" Sendo verdade que abusava do vocábulo, preferindo-o ao banal "talvez", é pouco provável, contudo, que a origem do gosto assentasse no bolerão de Oswaldo Farrés. Mas o fato é que, aproveitando-se do momento, um espírito de porco qualquer alcunhou-o "Professor Quizás". A coisa pegou, sendo até hoje repetida, mesmo por quem nunca tenha ouvido o refrão "quizás, quizás, quizás"... O troco, contudo, seria dado à frente, ao menos à ala conservadora de seus desafetos, prenhe de ex-normalistas, retrato autêntico da fauna local. Àquelas Senhoras-Fulanos-de-Tais, pretensas críticas e intelectuais autônomas, Adalberto dizia-lhes não ser bastante trocar o "corte &amp; costura" pelo "porte &amp; postura". Mais que o physique, era preciso a – tête du rôle... Uma ofensa, claro, que, porém, respondia à glosa sexista do apelido que lhe fora dado. Solteiro e discretíssimo, "Quizás" despertava a comichão alheia, sempre às voltas com escapulidas e autoafirmações.  Não raro, Adalberto terminava a noite com a Suite Bergamasque e uma dose generosa de Laphroaig. Como cena de fundo, a fantasia de sempre: um Jaguar Type E Cabriolet 1969, Charlotte Rampling ao lado. Às vezes, Jane Birkin. Não que o bólido, as garotas prafrentex e o impressionismo debussyano – com ou sem single malt whisky – formassem um quadro coerente... E não se diga: "gosto não se discute". Contra quem o fizesse, ele disparava, sem papas na língua: mas se adquire! O que conta é que mesmo ao som de Billie Holiday em Stormy Weather, a cena de fundo permanecia a mesma. A concessão era a garrafa de Jack Daniel's. Então, isolado, deixou-se atrair por alguém – do ramo. O tiro, porém, saiu pela culatra. Disposta a relaxar o cliente que acabara de conhecer, a moça atacou de piadista: "Você sabe o que é um professor? Um cara mais ou menos com um orçamento igual!"...  Sorrindo amarelo e saldando [a troco de nada] a parte que lhe cabia no acordo, Adalberto voltou ao Jaguar e a Charlotte.  Ou seria Jane?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7055677038051962606-3126097168649814045?l=rancan.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://rancan.blogspot.com/feeds/3126097168649814045/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7055677038051962606&amp;postID=3126097168649814045' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7055677038051962606/posts/default/3126097168649814045'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7055677038051962606/posts/default/3126097168649814045'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://rancan.blogspot.com/2008/06/crnicas.html' title='Crônicas, continhos, poemetos'/><author><name>Ubirajara Rancan de Azevedo Marques</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh6.googleusercontent.com/-kkAmDH6mRSE/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAAA/-w6K46OktcQ/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
